
Empresas, associações, instituições, agentes públicos e organizações não governamentais estão cada vez mais sendo confrontados com exigências de comportamento ético por parte de seus funcionários, clientes e outras parcelas da sociedade e precisam estar preparados para dar respostas consistentes a essas cobranças. Algumas empresas vêm buscando atender a essa demanda por meio de adaptações de Códigos de Conduta e Códigos de Ética de outras organizações ou mesmo de suas matrizes – no caso de multinacionais, deixando de considerar as diferenças decorrentes da história, do ambiente e de sua estrutura. Essa forma de superar a falta de um Código certamente não é adequada e gera desconforto e baixa confiabilidade entre os stakeholders, particularmente entre os colaboradores, que vivem o dia-a-dia da empresa e percebem de imediato a falta de sintonia entre o que se escreveu e o que se pratica.
Vale a pena, antes de tomar essa iniciativa, pensar por que a sociedade espera um comportamento mais ético de empresas e de suas associações e em como dar a resposta adequada a essa expectativa.
O Brasil se caracteriza por uma flexibilidade ética generalizada, que vem desde os tempos do início da colonização. Fazem parte dessa flexibilidade a apropriação do Estado e de seus recursos por pessoas da burocracia estatal, políticos e grupos privados, a falta de cumprimento das exigências legais e tributárias, o abuso de poder, o nepotismo e tantos outros vícios de comportamento, que começam com atitudes simples como o atraso nos compromissos, o desrespeito às regras de trânsito e outras falhas no dia-a-dia.
Para as empresas essa flexibilidade ética foi muitas vezes o caminho do crescimento, até por que os políticos sempre buscaram criar leis inadequadas, quando não absurdas, como forma de vender facilidades ou “jeitinhos” e, assim, obter recursos por meio da corrupção, enquanto outros tinham como foco dificultar o bom funcionamento empresarial, por preconceitos ideológicos. Logo, a forma de superar esses entraves era (e em parte ainda é) a propina e o jabá.
Lentamente o país está mudando, e há uma parcela crescente da população não mais disposta a aceitar esses comportamentos. Por outro lado, várias empresas estão se internacionalizando e indo para países onde a falta de cumprimento das leis é severamente penalizada. Com isso, a implantação de programas e códigos de ética nas empresas e em suas associações passa a ser uma resposta às exigências da sociedade, permitindo que o setor empresarial ganhe maior confiabilidade, transformando seu crescimento e lucratividade num ponto de orgulho para a população e não num alvo de ataque.
Um programa de ética consistente pode ser o passo inicial para a mudança. A decisão parte da direção da organização e deve ser seguida por um amplo processo de conscientização de todos os seus participantes. Esse processo leva um tempo para se transformar na prática do dia-a-dia, e precisa ser implantado de forma estruturada, a partir do reconhecimento da realidade e do envolvimento de todos na busca da consolidação. A experiência mostra que da determinação de criar e implantar um programa de ética até sua transformação numa realidade abrangente e efetivamente praticada, é necessário um prazo de pelo menos um ano, entre levantamentos, estruturação, treinamento e aplicação das regras.
Além disso, ao implantar programas de ética, os dirigentes empresariais vão, em muitos casos, verificar que é indispensável um trabalho político, através das organizações de classe, para mudar pontos da legislação e aspectos tributários que dificultam ou mesmo impedem a existência de empresas éticas em determinados setores. E vão constatar também que serão mal vistos por alguns concorrentes e colegas, pois fica mais difícil o enriquecimento rápido, hoje possibilitado pelo trabalho à margem da lei.
Transformar-se numa organização ética não é fácil, mas certamente traz um extraordinário ganho de satisfação para as pessoas que nela trabalham, ajuda a reter e atrair talentos, possibilita um trabalho mais eficaz com menos controles e pressão, e permitirá um reconhecimento crescente da sociedade
* Consultor de Ética Organizacional e Comunicação Estratégica, é presidente da CL-A Comunicações, coordenador do PNBE – Pensamento Nacional das Bases Empresariais, presidente do Conselho de Governança do Instituto PNBE de Desenvolvimento Social e autor de vários livros e artigos, entre os quais Ética na Política e na Empresa (Editora CLA).