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Brasil e a Nova Geopolítica Global: desafios, soberania e estratégia de desenvolvimento

Publicação: 22/05/2026
Brasil e a Nova Geopolítica Global: desafios, soberania e estratégia de desenvolvimento

Em um cenário internacional marcado pela fragmentação política, pela disputa tecnológica e pelo enfraquecimento das instituições multilaterais, o Brasil precisa redefinir seu papel no mundo. Essa foi a principal reflexão apresentada pelo professor Paulo Feldmann em webinar promovido pelo PNBE (Pensamento Nacional das Bases Empresariais) sobre “A situação geopolítica e impactos na economia e no processo eleitoral no Brasil”.

Ao longo da discussão, Feldmann defendeu que o país possui condições concretas para se tornar uma potência geopolítica, desde que consiga transformar suas vantagens naturais em capacidade industrial, tecnológica e estratégica. Para ele, a abundância de commodities, energia e minerais críticos coloca o Brasil em posição privilegiada no novo tabuleiro global — mas essa vantagem só terá valor real se vier acompanhada de planejamento nacional e desenvolvimento tecnológico.

Segundo o professor, a reorganização da ordem internacional, intensificada após a ascensão de Donald Trump e o enfraquecimento de organismos multilaterais, exige que o Brasil adote uma política externa mais pragmática e menos dependente de grandes potências. Nesse contexto, Feldmann alertou para os riscos de concentração excessiva das relações comerciais com países como China e Estados Unidos, defendendo a diversificação de parceiros estratégicos.

Outro ponto central da palestra foi a necessidade de agregar valor às riquezas nacionais. Feldmann criticou o modelo econômico baseado na exportação de matérias-primas e citou exemplos emblemáticos, como a indústria brasileira de suco de laranja, que frequentemente exporta insumos sem capturar as etapas mais lucrativas da cadeia produtiva. Para ele, o país precisa abandonar a lógica de fornecedor de commodities e investir em industrialização, inovação e tecnologia.

A questão tecnológica apareceu como eixo decisivo do debate. O professor destacou a dependência brasileira em relação a equipamentos solares produzidos pela China e chamou atenção para o fato de que o Brasil possui importantes reservas de terras raras — minerais essenciais para a indústria de alta tecnologia — mas ainda não consegue transformá-las em vantagem industrial efetiva. Na avaliação de Feldmann, acordos comerciais e investimentos estrangeiros deveriam obrigatoriamente incluir transferência de tecnologia, formação de engenheiros e fortalecimento da indústria nacional.

Nesse sentido, ele defendeu uma estratégia nacional de desenvolvimento fortemente coordenada pelo Estado, capaz de articular governo, universidades e setor produtivo. Como referência internacional, citou o modelo de inovação de Israel, especialmente a integração entre universidades e incubadoras tecnológicas, que impulsionou a criação de empresas de alta tecnologia e consolidou o país como polo global de inovação.

Feldmann também criticou o abandono da cultura de planejamento estratégico no Brasil a partir da década de 1990. Segundo ele, a redução do papel do Estado no planejamento econômico comprometeu setores essenciais e contribuiu para crises estruturais, como o apagão energético de 2001. O professor argumentou que o país perdeu capacidade de formular políticas industriais de longo prazo e passou a depender excessivamente das dinâmicas do mercado internacional.

Durante a palestra, o conceito de “nacionalismo econômico” apareceu como elemento-chave para reconstruir a capacidade produtiva brasileira. Feldmann defendeu que o país priorize empresas nacionais e estabeleça contrapartidas estratégicas para empresas estrangeiras que desejam atuar no mercado brasileiro. Em sua visão, grandes acordos internacionais devem gerar benefícios concretos para o desenvolvimento interno, especialmente em setores estratégicos como ferrovias, fertilizantes, farmacêutica e biodiversidade amazônica.

Ao comentar a posição brasileira na América do Sul, Feldmann observou que o país ainda não exerce liderança regional compatível com seu tamanho econômico e territorial. Para ele, falta uma visão geopolítica de longo prazo que permita ao Brasil assumir protagonismo regional e ampliar sua influência internacional.

A discussão também abordou temas políticos e institucionais. Feldmann afirmou que a sociedade civil brasileira se encontra desencantada com a política e destacou a necessidade de ampliar a mobilização social em torno de um projeto nacional de desenvolvimento. Ele também defendeu reformas políticas e constitucionais capazes de reduzir a fragmentação partidária e criar condições para políticas públicas mais estáveis e estratégicas.

Outro tema levantado foi a corrupção. Na avaliação do professor, mecanismos como as emendas secretas representam atualmente uma das principais distorções institucionais do país e comprometem a capacidade de planejamento do Estado.

Ao encerrar sua fala, Feldmann ressaltou o papel de organizações da sociedade civil, como o PNBE, na construção de um debate público voltado ao futuro do Brasil. Para ele, a discussão sobre soberania, tecnologia, industrialização e estratégia nacional precisa ocupar espaço central no debate político e eleitoral dos próximos anos.

Mais do que um diagnóstico econômico, a palestra apresentou uma provocação sobre o futuro do país: em um mundo cada vez mais competitivo e fragmentado, o Brasil precisará decidir se continuará apenas exportando riqueza ou se será capaz de transformá-la em desenvolvimento, inovação e poder estratégico.

Paulo Feldmann (Professor da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo - USP)

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